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A tendência de queda do bom e velho golpe do baú

O título deste texto pode soar como brincadeira, mas o assunto é sério. Trata-se do aumento da expectativa de vida, que, no último século, alterou as circunstâncias de sucessão patrimonial tão drasticamente que hoje ameaça até a sobrevivência de um clássico instrumento de enriquecimento: o golpe do baú.

No início do século XX, o jovem pouco escrupuloso que se casava, em torno dos 20 anos, com um filho ou filha de pais ricos, de idade próxima à sua, não esperava muito para ouvir o tilintar da herança dos sogros. A conta é simples: a expectativa de vida era, então, de 48 anos e, mesmo que muitas mulheres fossem mães ainda adolescentes, dificilmente teria menos de 40 quando seu filho tivesse, digamos, 23 anos. Assim, tudo funcionando segundo as médias, o golpista esperaria no máximo oito anos até a morte da sogra. No entanto, no final daquele século, os recém-nascidos já podiam sonhar chegar aos 73 anos.

Solução para uns, problema para outros. Além de um peso sob o qual os sistemas de previdência ameaçam soçobrar, a maior longevidade é também uma pedra no sapato dos candidatos a aplicar o golpe do baú. Hoje, os pais de um jovem de 23 anos têm, em média, entre 45 e 55, e o golpista esperará de 18 a 28 anos para ver a cor do dinheiro. Isso sem falar na rápida evolução dos diagnósticos e no provável aumento da expectativa de vida nos próximos anos – sobretudo para sogros ricos que possam pagar pela medicina de ponta.

No novo cenário para a sucessão familiar, a herança chega, em média, 25 anos mais tarde e já não exerce o papel de quando os herdeiros tinham, em geral, entre 30 e 40 anos e atravessavam o período mais crítico da formação da família. Hoje, eles costumam estar entre 55 e 65 anos e suas necessidades mais prementes – assim como as grandes oportunidades – já foram bem ou mal ultrapassadas.

Contudo, a maioria dos pais ainda poupa para que os filhos herdem no futuro, sem perceber que, na nova realidade, os investimentos mais produtivos estão no presente. É improvável que, com mais de 55 anos, seu filho ainda deseje fazer aquela aventura pelo Zanzibar e que seus netos, com quase 30, aproveitem uma educação privilegiada – ainda, e sempre, a melhor herança, a única que não se pode gastar, perder, taxar nem confiscar.

As novas circunstâncias sugerem a revisão de conceitos. A poupança que incrementava o patrimônio a ser legado deve, agora, abrir espaço para a doação ou para a simples ajuda. E o adiantamento em vida é uma hipótese a ser avaliada, sempre com muita cautela para não impor riscos ao futuro dos pais.

Em qualquer caso, verifica-se que o papel dos ascendentes de investir nos descendentes se prolongou. E, como em qualquer estratégia de investimento, é preciso em primeiro lugar determinar a soma realmente disponível, respeitando religiosamente o limite a partir do qual a segurança dos pais, hoje mais longevos, começa a ser ameaçada. Toda alienação deve levar em conta uma generosa reserva para os pais, considerando uma alta expectativa de vida e um aumento de custos na terceira idade freqüentemente superior à evolução dos preços em geral. O artigo “Quanto eu posso gastar?”
(www.gespat.com.br/Midia/Valor-04.pdf) pode ajudar nessa avaliação.

Após estimar sua real disponibilidade, quem deseja contribuir para a segurança financeira dos descendentes deve enfrentar um segundo e constante desafio: discernir entre investimento e gasto.

Warren Buffet, um dos maiores investidores do mundo, com mais de US$ 40 bilhões, equacionou a questão dizendo que daria a seus filhos “o bastante para que pudessem fazer qualquer coisa, mas não o suficiente para não fazerem nada”.

Assim, preservaria para eles o privilégio de escolher uma atividade sem maior preocupação financeira, ao mesmo tempo que evitaria que caíssem no ócio. Contudo, resolver a equação de Buffet não é tarefa simples. Todos conhecemos pais cuja prodigalidade resultou em filhos inertes. Mas há também os que, caminhando no sentido oposto, chegam ao mesmo resultado ao estipular mesadas que garantem aos filhos o essencial, mas não possibilitam maiores oportunidades de educação, em sentido amplo, ou investimento na carreira, e terminam por se constituir em subsídio ao ócio. O fato é  que a natureza desse desafio não é quantitativa, mas qualitativa, pois não se trata tanto de estabelecer o volume de recursos destinado aos descendentes, mas de orientá-lo para uma aplicação realmente produtiva.

De qualquer modo, entre tantas novas preocupações, ao menos o risco de ver sua descendência cair no mais antigo dos golpes apresenta clara tendência de queda.

Ricardo Taboaço é sócio da Taboaço, Nieckele & Associados Gestão Patrimonial
E-mail: ricardo@gespat.com.br

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