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Quanto posso gastar para perpetuar meu patrimônio?

Desde que iniciei minha carreira na área de investimentos, há cerca de 20 anos, ouço uma pergunta recorrente – “Quanto posso gastar?” – e suas variantes: “de quanto preciso para me aposentar com tal idade e tanto de renda?”, “com o patrimônio atual, gastando tanto por mês, até que idade consigo manter-me?” ou “quanto posso gastar perpetuando o valor de meu patrimônio?”. A preocupação procede e é prudente, como prova uma recente pesquisa americana. Ela mostra que gastos excessivos e perdas financeiras retiraram da lista dos mais ricos 51% das famílias dos Estados Unidos que a freqüentavam duas décadas antes.

Com os parâmetros à mão, qualquer um que opere calculadoras financeiras poderia responder a essas perguntas facilmente. A dificuldade não está na conta, mas na definição dos parâmetros, o que, aliás, talvez seja a maior diferença entre a escola e a vida real. Na escola, aprende-se a resolver problemas com premissas ou parâmetros dados. Na vida real, a maior dificuldade é obter os parâmetros ou definir premissas razoáveis. O problema proposto pelas perguntas acima não foge a essa regra. Definir parâmetros de rentabilidade razoáveis para uma carteira de investimentos pelos próximos 20, 30 ou 50 anos é tão difícil quanto prever os gastos familiares nesse mesmo horizonte. Afinal, famílias evoluem, filhos crescem, trabalham e casam, afetando a dinâmica das despesas.

Minha sugestão é abordar a questão como qualquer problema crônico: se não se pode dar uma solução pronta e definitiva, podem-se pelo menos determinar direções a serem seguidas a cada período. Assim, recomendo que, inicialmente, os parâmetros adotados para o cálculo sejam uma estimativa da rentabilidade dos investimentos e os custos anuais atuais ajustados para variações futuras previstas e que, anualmente ou quando haja alteração significativa, esses parâmetros sejam revistos e os cálculos refeitos.

Há, contudo, um outro complicador que ainda não mencionamos e que vem a ser o maior vilão do planejamento patrimonial: a inflação. Apesar de seu nível atual ser bem inferior a seus níveis históricos, a longo prazo, ela ainda pode corroer qualquer riqueza.

Para nos prevenir contra isso, nosso cálculo deve considerar rentabilidades reais, ou seja, acima de um índice de inflação como o IPCA, por exemplo. Gastando menos do que a rentabilidade real dos investimentos, perpetua-se o seu patrimônio.

No exterior, os especialistas em gestão patrimonial recomendam que os gastos anuais sejam inferiores a 4% do total dos investimentos financeiros. Mantendo-se nesse limite de gastos, a probabilidade de perpetuar o patrimônio é bastante alta, sobretudo se os investimentos financeiros são diversificados e bem administrados.

No Brasil, a situação macroeconômica permite que se dilate a faixa de segurança para algo entre 6% e 8%. A definição do percentual, entre 6% e 8%, depende basicamente da composição da carteira, do nível de risco associado e da volatilidade tolerada. O mais importante é ter em mente que incrementos de risco e volatilidade aumentam a expectativa de retorno, mas também a probabilidade de perdas efetivas, o que comprometeria o projeto de longo prazo.

Definida a faixa de segurança, podemos começar a responder a pergunta do início do artigo multiplicando o montante investido por algo entre 0,06 ou 0,08, para encontrarmos o limite máximo de gastos anuais. Dividindo-o por 12, conheceremos os limites mensais. De outro lado, se quisermos saber qual o investimento total necessário para nos aposentarmos com determinada disponibilidade mensal, basta multiplicar essa soma por 12 meses e dividir por um número entre 0,06 e 0,08. De forma bem prática, bastaria multiplicar a despesa média mensal por algo entre 150 e 200 vezes.

Feitos esses cálculos iniciais, três procedimentos devem ser adotados para que seu objetivo seja atingido:

1) Responda à pergunta inicial ao menos uma vez por ano;
2) Mantenha seus gastos anuais abaixo de 6% do volume investido;
3) Reavalie periodicamente a alocação dos investimentos financeiros à luz de suas necessidades.

Lembre-se ainda de que – para fins de planejamento patrimonial – ativos imobilizados como casa de campo, barco, carro etc são passivos ou incrementos de despesas, e não, ativos, como a técnica contábil em geral os trata. Outra dica de planejamento: esteja ciente de que os gastos de hoje corroem o patrimônio e as possibilidades de gastos futuros geometricamente.

Ricardo Taboaço é sócio da Taboaço, Nieckele & Associados Gestão Patrimonial
E-mail taboaco@gespat.com.br

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