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Investidor precisa saber quanto e qual risco quer correr

Antes de os fundos de derivativos se tornarem uma importante classe de investimentos, as opções dos investidores dividiam-se basicamente entre renda fixa e renda variável, até então, as duas grandes espécies de investimentos em ativos líquidos. Os critérios de escolha entre as duas modalidades estavam relativamente claros para a maior parte dos investidores. A renda fixa, normalmente com menores perspectivas de ganho e baixa volatilidade (ainda que, a partir dos anos 80, políticas monetárias mais ativas tenham imposto a esse mercado oscilações mais bruscas), era a opção racional de quem privilegiava a liquidez. Enquanto isso, os investimentos em renda variável, cuja volatilidade tanto pode propiciar ganhos elevados como impor pesados prejuízos a quem tenha necessidade de liquidez em momentos de baixa, conquistava a preferência dos que privilegiavam a rentabilidade e dispunham de tempo.

Os fundos de derivativos chegaram a essa cena com a proposta de oferecer investimentos com rentabilidades próximas às da renda variável e volatilidades pouco superiores às da renda fixa. E boa parte deles tem conseguido. Traçando dezenas de estratégias e subestratégias de hedge, eles procuram eliminar ou reduzir a influência das flutuações dos mercados sobre seus resultados. Como conseqüência, concentram o investimento nas apostas feitas nos próprios mercados derivativos, expondo-se apenas ao risco da aposta, em si mesma. Assim, embora a volatilidade dos preços seja reduzida, outros elementos do risco, como a possibilidade de perda efetiva, não se reduzem na mesma proporção e podem tornar-se maiores, pois, tratando-se de apostas com prazos de vencimento determinados e geralmente curtos, qualquer erro pode ser fatal e irreversível.

Dessa forma, os fundos de derivativos oferecem, de fato, uma volatilidade proporcionalmente mais baixa do que a da renda variável, o que, no entanto, não se traduz, necessariamente, em menor risco de perda efetiva. Ações de empresas sólidas, com boas perspectivas de crescimento, escolhidas com base numa análise competente e profunda têm um comportamento volátil, mas tendem a recuperar-se das baixas ao longo do tempo e só à força de eventos muito espetaculares viram pó.

Em oposição, apostas perdidas, no mercado de derivativos ou em qualquer outro, são pó, inapelavelmente. Exatamente por isso, gestores de fundos de derivativos introduziram em suas estruturas os departamentos de controle de risco, a cada dia mais sofisticados, monitorando as diversas posições em tempo real, para, se necessário e possível, liquidá-las e, assim, reduzir as perdas. A lógica é, portanto, invertida em relação à das ações, onde dar tempo à recuperação de preços é, freqüentemente, a melhor opção para quem confia em seu portfólio. Daí que, no mercado de ações, a confiança que os gestores de fundos derivativos depositam em suas áreas de controle de risco repouse sobre os departamentos de análise.

Em resumo, o que se verifica é que o peso da volatilidade como fator de risco é menor quanto maior é o prazo do investimento: no mercado de ações, a queda de preços fatal para quem precisa liquidar sua aplicação pode ser totalmente inócua e até benéfica para aplicações sem prazo definido. Há, entre os dois tipos de investimento, uma diferença qualitativa, de espécies, e, conseqüentemente, o usual cotejo de volatilidades torna-se um instrumento inadequado para comparar o nível de risco de perda efetiva entre ações, renda fixa e derivativos. Essa diferença de espécies é, entretanto, desconsiderada pelos sistemas massificados de quantificação de risco que, invariavelmente, rotulam as carteiras de investimento e/ou investidores como “conservadores”, “moderados” ou “agressivos” e utilizam a volatilidade como parâmetro principal, terminando por estabelecer comparações e classificações falaciosas.

O que de tudo isso se conclui é que a qualificação dos diversos riscos (crédito, performance, volatilidade, prazos, taxas etc) deve vir antes de sua quantificação e seguir-se de sua adequação às possibilidades e necessidades do investidor. Para parcelas das carteiras com horizonte longo ou sem prazo determinado, com propósito previdenciário ou de preservação de valor para legados, a volatilidade dos ativos de renda variável deixa de ser um risco relevante, quando pensarmos em perda definitiva, e pode transformar-se em aliada de um bom gestor para obtenção de ganhos superiores.

Talvez seja um golpe duro para nossas ilusões de objetividade e segurança, mas a verdade é que não há medida universal para o risco nem solução mágica que elimine a necessidade de fazer escolhas. Em qualquer caso, o balanceamento pelas classes de ativos, a competência na seleção dos gestores e o acompanhamento macroeconômico serão sempre os fatores essenciais para minimizar riscos, que inevitavelmente existirão, em graus que só podem ser comparados quando se tratarem de investimentos da mesma espécie. Ao investidor, o que realmente importa é optar por aqueles que sejam compatíveis com suas disponibilidades de recursos e necessidades e, para isso, qualificá-los e adequá-los ao cliente é mais importante do que sua simples quantificação.

Ricardo Taboaço é sócio da Taboaço, Nieckele & Associados Gestão Patrimonial
E-mail ricardo@gespat.com.br

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